



Lendo o caderno Mais! da Folha de São Paulo do último domingo (7/6), voltei a pensar na relação dos nativos e estrangeiros com as cidades. Há uma entrevista com a socióloga argentina Beatriz Sarlo falando sobre Buenos Aires, um texto de Danuza Leão sobre Paris e outro do Nobel de Literatura Orhan Pamuk sobre Veneza. Exceto este último, que pareceu sondar a cidade italiana com o olhar de um estrangeiro encantado, tanto Beatriz quanto Danuza me deixaram um pouco decepcionada: onde estão as cidades quase idílicas de que ouvimos falar e que são sempre diferentes e melhores que as nossas?! Beatriz, ao falar de Buenos Aires, parece qualquer brasileiro discorrendo sobre as mazelas do lugar onde vive. Até aquela velha comparação da cidade portenha com Paris é posta em xeque por ela ("... quem conhece Paris sabe que não se parece com a capital argentina"). Ela está de bode até daquilo que nos parece um traço de politização (ao contrário de nós, 'tupiniquins cabeças ocas sem memória'): "... o lado sinistro do que acontece com a morte na Argentina, onde (...) vivemos discutindo o destino dos restos mortais das pessoas que foram importantes na história do país".
Danuza, que vive desde criança no Rio de Janeiro e já morou em Paris duas vezes - uma por dois anos e outra por cinco -, desmitifica a imagem do parisiense típico quando relata que por volta de 2000 o prefeito francês Bertrand Delanoë propôs a construção de prédios de mais de 200 metros nos arredores da cidade a fim de preservar a Cidade Luz como ela é, e qual não foi o espanto dele quando uma pesquisa pública mostrou que os parisieneses não concordavam com a ideia?? Ué?! Cadê os europeusconscientescultosquevalorizamaprópriahistória?
E agora? Com que vou sonhar?! Onde vou projetar minhas expectativas de cidade quase ideal?!
Prefiro ficar com a visão não menos lúcida de Orhan Pamuk, que diz que há lugares para todos os gostos: para se trabalhar, para passar férias, dos quais fugir, para se sentir triste e até para se morrer. Mas o lugar que escolhemos para viver tem que ser necessariamente parecido com a Veneza do escritor: para ser feliz.